É possível um liberalismo econômico em uma sociedade conservadora?
A pergunta é direta, porém a resposta é complexa. Primeiro pela confusão feita entre liberalismo em sociologia e liberalismo econômico. Há também a falta de perspectiva e de referência para analisar a viabilidade de simultaneidade de uma economia liberal e uma sociedade conservadora. Finalmente, o extremismo metalinguístico que vivemos, ao aplicar teorias e conceitos de forma absoluta e dissociado da realidade. Portanto, após analisar essas três questões, será possível entender se a resposta será sim ou não.
Liberalismo econômico não é liberalismo social. De forma simples, o primeiro entende-se como uma teoria de organização econômica de uma sociedade na qual visa-se a diminuição da atuação estatal em prol de maior liberdade do indivíduo para seu ofício e consequente ganho econômico. Após a crise liberal dos anos 1920, foram feitas reformas necessárias e adaptações que deram origem ao que mais se conhece como neoliberalismo. Nesse sentido, as reformas das ideias liberais demonstraram a importância de se ter um Estado presente e regulador econômico, porém de forma a apenas evitar as distorções de mercado causadas pelos agentes. Além disso, o liberalismo econômico só pode ser observado de forma mais genuína nas economias ocidentais livres que possuem mecanismos de controle estatal mais eficientes.
O liberalismo social, apesar de também buscar a atuação livre de cada um, difere-se do econômico justamente por querer um Estado mais ausente do que nesse último. Socialmente, o indivíduo deve buscar sua felicidade como lhe parecer melhor e não cabe à autoridade estatal intervir nisso. Obviamente, essa ausência de autoridade (que chega a ser utópica) é o objetivo aqui, uma espécie de anarquia. Contudo, sem a existência do Poder Constituído (admitida no neoliberalismo) a economia acabaria ficando nas mãos de alguns poucos, pela tendência econômica capitalista em gerar monopólios e oligopólios. Portanto, quando se fala em liberalismo social, não se pode confundir com a ideia liberal econômica, pois essa última observa no Estado uma espécie de árbitro econômico que deve estar ali sempre presente.
Certo, mas as ideias são próximas e a origem do liberalismo econômico é justamente a ideia de liberdade individual, então, por que não se confunde com o social? Nesse sentido, o conservadorismo entra em cena como o balanço para equilibrar o que se conhece até então como civilização democrática ocidental. As regras e a preservação social são fundamentais para manter a ordem, mas sem infringir as sagradas liberdades individuais, propriedade privada e economia capitalista. Assim, nações ocidentais foram construídas não totalmente liberais, permitindo o liberalismo na economia, porém sempre equilibrado com uma sociedade balizada por valores e respeito às tradições e história. Dessa forma, foi possível haver organização social, sem barrar o avanço econômico capitalista.
Finalmente, ao se observar a aplicabilidade teórica ao longo da história, não há teoria, ideia, conceito ou princípio que tenha sido praticado integralmente à risca. A falta de contextualização e pensamentos em termos absolutos levam muitos a crerem que uma determinada teoria não é compatível com outra. Exemplo atual disso: A China é um país extremamente capitalista, contudo não exerce um liberalismo e tampouco um conservadorismo seja nas tradições milenares chinesas, seja no uso da democracia no capitalismo liberal. Outro exemplo: O EUA é um país tradicionalmente de economia liberal, assim, aumentar a atuação do Estado para preservar algum direito ou para intervir na própria economia seria uma ação não conservadora dentro daquela sociedade, seria uma ação revolucionária, diferente do tradicional. Assim, não se pode jogar palavras soltas e dissociadas de um determinado contexto e semântica adequada para fazer afirmações como: É impossível existir liberalismo econômico em uma sociedade conservadora. Ou vice-versa.
Em conclusão, a resposta já imaginada pela leitura do texto é: Sim, é possível a convivência entre liberalismo econômico e conservadorismo. Primeiro por não se confundir liberalismo econômico e liberalismo social, segundo pela tradição de equilíbrio ocidental entre conservadorismo e liberalismo econômico que geraram essa convivência. Por último, precisa-se compreender que usar conceitos absolutos de forma solta e dissociados da realidade é um erro comum, compreensível, que gera a análise errônea sobre a inviabilidade de existir liberdade econômica com a preservação de valores e princípios sociais. Obviamente que não se espera manter nem um nem outro de forma absoluta, porém é possível observar, tanto liberalismo como conservadorismo, influenciadores no Ocidente de forma que um equilibra o outro, o que gerou a vida ocidental como conhecemos, com defeitos, mas também com muitas virtudes.

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