Análise das Relações Internacionais na América Latina no caso de vitória de Bolsonaro

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Muito é dito sobre o atual posicionamento brasileiro com relação à situação na Venezuela que no momento deve ser: Recepcionar os refugiados do regime totalitário de Nicolás Maduro e manter-se neutro quanto à manutenção de Maduro no poder. Vários candidatos já se pronunciaram em relação ao tema, e com exceção de Bolsonaro, demonstram simpatia ao ingresso de venezuelanos pelas fronteiras brasileiras, fugindo da ditadura esquerdista, mas não há um posicionamento firme sobre como resolver a questão. A análise a ser feita objetiva verificar o cenário com o qual o Brasil pode encarar após a eleição do candidato do PSL decido sua postura mais intransigente com regimes de esquerda.

Brasil: O gigante que precisa assumir sua posição de acordo com seu poder

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Arte do Gigante Acordando
É verdade que o Brasil não pode ser chamado de país bélico ou guerreiro. Entretanto, o tempo passa e o país vê-se obrigado cada vez mais a tomar uma decisão crucial: Qual o país que queremos ser? Qual o projeto de nação para o Brasil? Nesta eleição as duas principais propostas estão à mesa: De um lado o Brasil pode ser o líder do que projeta-se uma união de repúblicas esquerdistas na América Latina (a "famosa" URSAL - União das Repúblicas Socialistas da América Latina) em resposta ao demonizado "imperialismo" dos EUA na região. Do outro lado, a opção de um Brasil alinhado com o momento nacionalista que varre o globo representado pelo grupo de conservadores e apoiadores a Jair Bolsonaro, bem como aliar um Brasil forte e independente à abertura econômica com a eliminação do viés ideológico nos negócios feitos por Brasília, o que gerará sem dúvida um antagonismo com os principais países de esquerda (Venezuela, Bolívia e Equador).

Com essas duas posições demonstradas, agora irei me ater à hipótese que vislumbra Bolsonaro como presidente e os possíveis desencadeamentos de fatos e posturas diplomáticas na região. Abordar-se-á cadeias de eventos nas áreas de indústria e comércio exterior, política e diplomacia, e geoestratégia militar da região.

Governo Bolsonaro: Comércio sem viés ideológico e aberto para o mundo, mas...

Uma das marcas de Bolsonaro é o discurso econômico liberal que compreende a abertura socioeconômica brasileira voltada puramente aos negócios e oportunidades de forma pragmática. Há vantagens e desvantagens. As vantagens passam pela atração de IED (investimentos externos diretos) a um país carente desse fluxo de capitais e de baixa poupança interna. Dessa forma, a entrada de dólares no mercado ajudaria muito a diminuição do valor da moeda dos EUA em relação ao real, o que seria uma "mão-na-roda" contra a inflação. Outro ponto positivo seria o impulso ao agronegócio (carro chefe do Brasil), e também a abertura de crédito natural, com o melhoramento da visão dos investidores no país e consequente melhora das notas de classificação de risco das agências financeiras. Com mais capital e maior investimento, o governo teria mais receita e investiria nas áreas chave (saúde, educação e segurança) uma vez que a proposta liberal de Bolsonaro é enxugar a máquina pública ao máximo, com privatizações e extinções de empresas que não geram receita ou dão prejuízo e não sejam consideradas estratégicas (péssima notícia aos concurseiros que veriam a queda brutal dos concursos públicos). Logo, muitos produtos importados, caros atualmente, seriam mais baratos e concorreriam de forma brutal com produtos nacionais.

Mas, como nem tudo são flores, há perigos nessa política. O ambiente aberto brasileiro num período em que os países se fecham bastante ao comércio exterior (voltando inclusive as consideradas extintas "guerras comerciais e tarifárias"), pode levar o país à perda da sua capacidade produtiva industrial, com produtos vindos de fora que ostentam maior valor agregado e maior qualidade de países industrializados. Isso poderia levar o país a uma deficiência séria na sua indústria que praticamente a anularia (como ocorreu no México ao ingressar no extinto NAFTA). Além disso, tornaria o país altamente dependente do capital externo e da produção vinda de fora, pois muitos itens deixariam de ser fabricados e transportados na frágil e cara logística brasileira. Conclusivamente, poderia-se desencadear um novo ciclo negativo de desemprego e queda na arrecadação o que faria a máquina cíclica do liberalismo capitalista girar.

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NAFTA - North American Free Trade Area - extinta recente pela USMCA Area.
A despeito das últimas linhas pouco animadoras, vejo com bons olhos a união de Bolsonaro e Paulo Guedes. O primeiro é um autêntico estadista e patriota, luta pelo Brasil e pela busca de melhorias à nação. O segundo possui soluções econômicas arrojadas, que em muitas questões são necessárias, mas se implementadas em sua totalidade podem trazer prejuízos econômicos ao Brasil. Contudo, com a moderação e liderança de um estadista que sabe priorizar também investimentos nacionais e uma indústria brasileira própria, com o equilíbrio de um economista que controle os gastos públicos e coloque limites no controle estatal, dando mais liberdade para o crescimento econômico sem a escravidão de uma elevada carga tributária, observa-se um meio termo interessante.

Governo Bolsonaro: Menos ONU e mais Brasil - Um país mais independente nas suas decisões, mas...


















A falência do sistema de organizações ONU é discutida desde o fim da Guerra Fria (último resquício da II Guerra Mundial). Com a incapacidade de criar entendimento homogêneo em dezenas e dezenas de nações, as guerras que não foram impedidas e nem combatidas de forma mais franca pela ONU, além de privilegiar e eternizar as nações mais poderosas e distribuições de poder no globo, o que levou ao questionamento total e descrédito das Nações Unidas no início do séc. XXI. O Brasil, com a eleição de Bolsonaro, e sua postura de oferecer os direitos humanos a todos, (e não apenas focar isso para o "não-abuso de poder" por parte de Estados e seus agentes) seria mais inclinado a ignorar recomendações da ONU para atender a propostas como o excludente de ilicitude (uma das mais citadas pelo ex-militar do PSL); o não apoio a políticas de diversidade de gênero (amplamente defendidas e difundidas por organismos das Nações Unidas); um Brasil mais autoafirmativo e de certa feita mais assertivo na região sul-americana (algo não visto com bons olhos nem pela ONU e nem pelos nossos vizinhos); e, também, a busca por relações e acordos bilaterais ao invés do investimento no multilateralismo.

Regionalmente, como já citado, o Brasil passaria de um gigante adormecido e indeciso para o país a ser observado pelos nossos "hermanos" da América do Sul como aquele que dará as cartas e indicará os rumos para a região de forma mais direta. Essa postura aliada à proposta conservadora do governo bolsonarista levará ao fechamento de relações diplomáticas e até encerramento de diálogo com países como Bolívia, Equador, Nicarágua e principalmente a Venezuela. Isso colocará uma delicada situação ao governo brasileiro, pois a Venezuela está "sentada" na maior reserva de petróleo da América Latina e uma das maiores do mundo. Já a Bolívia está na maior reserva de gás natural da região (dois insumos altamente importantes para todos do subcontinente).

Internamente o Brasil manteria suas premissas de não intervir em países estrangeiros salvo por órgãos internacionais como a ONU mediante aprovação desse. Com isso, se ocorresse o milagre da autorização de intervenção de forças pacificadoras das Nações Unidas na Venezuela, provavelmente o Brasil lideraria a força (assim como no Haiti, porém com um desafio infinitamente maior). Entretanto, o cenário mais verossímil é a não aprovação em virtude do petróleo e dos interesses estadunidenses no país que vetaria no Conselho de Segurança da ONU qualquer intervenção, apresentando o motivo da Venezuela ser um governo totalitário e a solução apresentada seria a deposição forçada de Maduro. Contudo, a ONU (via de regra) não apoia a pura e simples deposição de governos pelas suas forças de paz, o que forçaria opções alternativas a serem analisadas mais adiante.

Apesar de ser uma postura diplomática com a qual o Brasil está menos acostumado, com dimensões continentais e riquezas imensas, nosso país precisa deixar de ser um autêntico figurante no cenário político-diplomático e tomar posições honestas e autênticas (sem seguir seus aliados necessariamente). Tal ato trará maior protagonismo de nosso país e mais atenção por parte das nações ao redor do mundo (e também maior oposição). Para tanto, não é preciso deixar sua tradição de pacifista e "país do diálogo", mas há vezes que o tom mais franco e a postura decisiva (sem ficar "em cima do muro") trazem confiança e até segurança para os aliados brasileiros.

Governo Bolsonaro: Força e Defesa - O Brasil armado e a corrida armamentista da América do Sul

Apesar de ser considerado a principal força militar da região, a verdade é que o Brasil possui deficiências em seu quadro militar. Isso o coloca em posição desconfortável em possíveis conflitos que poderão se desenrolar da nova postura diplomática no governo de Bolsonaro. O medo dos nossos vizinhos será mais realidade do que nunca: Um Brasil que quer comandar as decisões que darão rumos à região de modo geral é visto com muita desconfiança pela desproporcionalidade econômica e territorial que temos com os demais. Logo, serão necessárias Forças Armadas a altura da liderança mais assertiva que poderemos exercer. Isso trará o acirramento de ânimos principalmente com a "bola da vez" (Venezuela) que provavelmente cortará relações com o Brasil e chamará seu embaixador de volta para Caracas. Esse movimento, num governo do ex-capitão do Exército, será reciprocamente realizado por Brasília e a tensão será instalada entre ambos. Com as indefinições e delongas sobre o estabelecimento de uma força de paz da ONU na Venezuela caberá ao Brasil, com sua nova posição, guiar aliados (Colômbia e talvez - bem talvez - a Argentina) para a análise de alternativas que levem ao fim do governo de Maduro.

A Venezuela é um país de difícil acesso, conquista e ocupação. Na costa norte do país uma breve planície litoral da lugar aos Andes e cadeias não andinas no Noroeste. Ao sul, o Planalto das Guianas (alto, com clima duro e pouca vegetação) traz um grande desafio de conquista e ocupação, além de dar a vantagem da posição alta (high-ground), e ao centro uma floresta densa que ocupa a planície da bacia do rio Orinoco. É como um vale protegido por duas muralhas em volta e o mar na foz do Orinoco. Essa geografia já impõe sérios desafios a qualquer país que ingresse em campanha nas terras venezuelanas. Mas, antes fossem essas as únicas barreiras enfrentadas por uma possível campanha para deposição de Maduro.

O Brasil com sua atitude direta e personalista (ganhando a cara de seu presidente, Bolsonaro) não incomodará apenas seus vizinhos. As grandes potências verão a ameaça também. Um país detentor de quase tudo que precisa para se sustentar, com terras abundantes e biodiversidade pode seriamente mudar o ballance of power (ainda mais com investimentos maiores e mais francos em Segurança e Defesa). De imediato os EUA rejeitariam qualquer intervenção brasileira e de outro país na região, o que poderia levar a uma tensão maior, ou no enfraquecimento de sua influência. Os países europeus, principalmente França, Alemanha e Reino-Unido, defenderiam unicamente uma intervenção através da ONU, alegando a necessidade de lidar com cuidado numa região estratégica como a Amazônia (mas na verdade seria pela fonte alternativa ao petróleo e gás vindos da Rússia e do Oriente-Médio). Por fim, a China veria pessimamente a derrocada de um governo de esquerda que se alinha com os princípios comunistas do Partido Comunista Chinês e depende cada vez mais de Pequim no comércio exterior. A Rússia defenderia também a não intervenção e por já ter vendido diversos equipamentos de guerra à Venezuela, reforçaria ainda mais suas vendas a seu cliente.

Não sendo suficientes as barreiras físicas e diplomáticas, a Venezuela possui Forças Armadas capazes de causarem estragos a invasores de seu território. Atualmente, qualquer invasão planejada começa pelo ar, pois a superioridade aérea e eliminação de alvos chaves de forma rápida e eficaz se dá pelo uso de ataques aéreos e garantia de domínio nos céus em determinada região. Contra a Venezuela, essa missão primordial seria dura e complexa. A Venezuela conta com a mais fechada defesa antiaérea da América Latina com lançadores de mísseis teleguiados antiaéreos, canhões, metralhadoras e baterias de SAM (Surface Air Missile) de longo alcance, temidos até pelos caças dos Estados Unidos, os S-300VM russos. Isso já seria um forte desestímulo para as Forças Armadas de Brasil e Colômbia executarem quaisquer ataques a alvos na Venezuela que não teria dificuldades em abater os já envelhecidos F-5M, os caças-bombadeiros A-1 e aviões de ataque leve Super Tucano, todos do Brasil, além dos Kfir e F-16 colombianos.

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Su-30Mk2 - Principal caça da Venezuela


















Adicionando a isso, se por um acaso elas fossem eliminadas por forças terrestres, a superioridade aérea ainda enfrentaria os esquadrões venezuelanos com seus Su-30 Mk2 (desconsiderando o possível estado deficitário de operação desses), e os helicópteros de ataque Mi-35 que possuem capacidade de combate aéreo quando a superioridade é garantida por caças como os Su-30.

Conclusivamente, caberia ás autoridades definirem a melhor estratégia para sobrepor todas essas barreiras e conseguir o êxito na campanha que abriria portas para que o Brasil exercesse melhor sua influência na região. Com a eliminação do regime da Venezuela, seus seguidores teriam mesmo destino com menor esforço e em menos tempo, o que extinguiria a força da onda esquerdista na América Latina.









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