Caminhão, complôs e racismo: O mundo a ponto de explodir!

Olá, caro leitor. Com esse novo artigo retorno ao meu projeto do blog Sociedade Inteligente. Agradeço a todos que continuam acompanhando e vamos agora discutir um pouco os últimos fatos que a mídia deu destaque, entendê-los melhor e entender como o modo de guerra pós-contemporâneo mudou drasticamente dos últimos 20 anos para cá. O título já orienta os temas a serem abordados, primeiro com o ataque recente na cidade francesa de Nice, em seguida o complô turco para derrubar o atual governo, e finalmente as ondas de choque racial nos EUA onde brancos assassinam negros e os negros revidam com igual reação. Estaríamos vivendo num mundo a ponto de explodir? Quais as origens das atuais tensões sociais? Há risco do Brasil ser alvo de alguma tragédia nas Olimpíadas? Continue lendo e acompanhe essa breve reflexão.

Um caminhão desgovernado e centenas de mortos marcam o Dia da Bastilha na França
Caminhão usado para matar dezenas de pessoas em Nice - França.

O Dia da Bastilha, comemorado em 14 de julho, é um dos feriados ocidentais mais simbólicos. Comemora o início da popularidade que tomava a Revolução Francesa no séc. XVIII. Esse movimento que rompia com a antiga tradição e regime absolutista aristocrata trazia à tona uma nova era que marcaria o início da Idade Contemporânea. Era essa que seria marcada pelo fim de antigas práticas sociais, como escravidão, racismo, extremismo religioso. Espere! Olhando para os problemas atuais, será que foi isso mesmo? Seria o ataque do caminhão que levou a trágica morte de várias pessoas uma prova do fracasso dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade? Não há provas suficientes para suportar tamanha afirmação afrontosa ao que baseia a sociedade ocidental, entretanto é um sinal de algo deu errado no meio do caminho.
Não há informações até a data de hoje sobre as motivações reais do atentado. Teria sido um mero acesso de fúria de um francês nascido na Tunísia (segundo os serviços de mídia)? Seria uma pessoa descontente com o atual governo de François Hollande (alvo de críticas tanto de imigrantes quanto da população francesa nativa)? Seria mesmo um atentado terrorista arquitetado pela temido E.I. (Estado Islâmico)? Não se sabe, porém o que quero demonstrar é que a despeito de quaisquer das possibilidades (ou se for outro caso não citado), a realidade é que o mundo da Revolução Francesa mudou como jamais mudou num período de 227 anos. Revolução Industrial, guerras em escalas globais, ameaça de um apocalipse iminente, internet, terrorismo e segregação social, todas essas questões mudaram um mundo radicalmente e cada uma das citadas possui inúmeras ramificações de eventos que levaram o mundo de um pacato planeta dividido em vários mundos distintos, a um único planeta, com mundos que colidem a todo momento e cada vez mais se unem, gerando incontáveis problemas.
Tudo isso me faz crer que, independente da motivação, o atentado em Nice é o sintoma de uma estrutura que ainda pensa um mundo do séc. XIX ou início do séc. XX (onde há Estados que controlam o poder na esfera mundial), e não compreende que a Era Contemporânea acabou, mas os problemas que a Rev. Francesa lutou para encerrar ainda estão muito vivos.

Complôs: Golpes e governos cada vez mais instáveis - O caso turco
Blindado turco após a tentativa de golpe.

Apesar do fim da Guerra Fria ter sido celebrado por muitos como o "fim da História", a vitória do liberalismo e o início de um era próspera, a realidade dos últimos quase 30 anos mostram que tais conclusões passaram longe da realidade. Dentre outros problemas, algo que se denotou é a fragilidade do Estado em responder aos novos problemas sociais. A pulverização dos meios de comunicação, a ascensão de grandes corporações cada vez mais influentes e a capacidade de organização a nível global (mesmo sem a existência de uma centralidade de liderança) propiciada pela internet tem levado à obsolência do Estado-Moderno. Países são invadidos sem a presença física dos infiltrados (hackers ameaçam serviços que dependem de alguma forma da tecnologia), organizações sem rosto e sem organização definida efetuam ataques coordenados ao redor do planeta, governos são vítimas de complôs e de ameaças de todas as formas.
O caso dessa semana da tentativa de golpe sofrida pelo governo de Ancara - Turquia, demonstrou que golpes de Estado (algo "fora de moda" como alguns dizem") podem perfeitamente acontecer atualmente e são um retrato da fragilidade dos Governos em responderem às suas sociedades. Em países com democracias mais frágeis como Venezuela, Turquia, países africanos em geral, etc. essa fragilidade leva a complôs para tentativa de golpes de Estado. Já em democracias menos vulneráveis, como a brasileira, a crise entre Estado e sociedade leva ao esfacelamento dessa relação e à consequente imobilização do Estado em atender às demandas do povo, e o povo fica cada vez menos crédulo no seu Governo. Finalmente nas sociedades com democracias consolidadas (EUA e Europa) o que ocorre é a competição democrática nos pleitos cada vez mais acirrada e a menor constância de partidos no poder, o que é saudável mas pode gerar instabilidades.
A Turquia ainda possui o agravante de ser um dos países utilizados pelo Ocidente como tampão. Como assim? Atualmente a Turquia é um dos principais combatentes à ameaça imposta pela Guerra Civil síria e pelo E.I.. Pois faz fronteira com o país de Damasco e também é um forte aliado de Washington contra o terrorismo e extremistas islâmicos do Oriente Médio. Entretanto, apesar desse importante papel, os turcos não são aceitos na União Europeia, e tampouco considerados ocidentais. Já do lado muçulmano, são vistos como cão de guarda do Oeste e traidores do Islã, o que os coloca também aquém de alianças com os árabes. Herdeiros do extinto Império Turco-Otomano, atualmente vivem numa espécie de limbo geopolítico, o que traz uma forte instabilidade política interna com líderes de governo, ora favoráveis ao Ocidente, ora não tão simpatizantes assim. Portanto, o país acaba suscetível a eventos como os ocorridos, e por mais que seja uma república idealizada aos moldes do modernismo - com divisão de poderes, voto, etc. - o orgulho europeu e a segregação de povos não-europeus, impede que os turcos sejam abraçados pela Europa e os coloca a margem daqueles que os tratam como meros "buchas-de-canhão".

Racismo nos EUA - Um velho problema que o Ocidente não vence.

Como disse mais acima, a Revolução Francesa tinha dentre seus princípios a Igualdade - em resposta à segregação que as classes burguesas e de trabalhadores sofriam da aristocracia absolutista -. Na mesma época, os EUA tornavam-se independentes da coroa britânica e afirmavam sua liberdade através da famosa Declaração da Independência de George Washington, na qual ficou bem expresso também o princípio da Igualdade. Todos sabemos que isso não impediu a segregação que existe até os dias de hoje nos EUA entre negros e brancos (isso porque não irei tocar na questão dos mestiços, latinos e imigrantes).
A sociedade norte-americana possui essa questão como um de seus grandes paradoxos, apesar de ter lutado contra regimes segregadores - como de Hitler, Stalin, etc. - pratica a discriminação de forma frequente e há muito tempo. Ora, mas como se isso vai de encontro ao que diz o princípio da Igualdade? A realidade é que a sociedade ocidental (e por mais que como periféricos, estamos incluídos nela) vive em muito de demagogias e contradições. Esse é um dos pontos fracos que tem tornado o Oeste tão instável e vulnerável, a falta de solidez social e de caráter nas pessoas.
Essa situação em muito foi favorecida pelas atuais transformações socioeconômicas que nos trouxeram a uma era sem precedentes de individualismo, egocentrismo e urgência ao que é meu. Isso faz com que grupos sejam cada vez mais fechados e intolerantes, pessoas não aceitem os que são diferentes e divisões sociais são realçadas (apesar de não existirem fisicamente - o que pode até favorecer confrontos -). 
Outro ponto que a meu ver reforça as atuais divisões sociais é um discurso muito utilizado em "defesa da união entre as pessoas": O relativismo de opiniões e de visões de mundo. Atualmente há uma onda - principalmente entre autores pós-contemporâneos - que não existem verdades nem mentiras, não há certo ou errado, mas há visões de mundo distintas. Os que defendem essa visão afirmam que isso demonstra a necessidade de entender que aquilo que é certo para mim, é errado ao outro porque ele enxerga o mundo diferente e vice-versa. Portanto, não haveria certo e errado, ou verdade e mentira, mas versões segundo o que cada qual vê. Qual a minha crítica nisso? Ora, se o que é certo para mim é errado para outro por termos visões distintas, naturalmente o ser humano reage se isolando - já que jamais haverá um consenso. E não é o que vemos hoje? Pessoas intolerantes, que não desejam discutir porque sabem que não haverá um meio termo. O ditado que diz "sobre futebol, política e religião não se discute" ganha força e ninguém quer discutir sobre nada, sendo que cada pessoa se coloca na sua ilha do "eu" e aquele será seu mundo, pois o que ela pensa é certo, já que é a visão de mundo que ela tem. E essa "defesa" acaba se tornando contra si mesma, virando um incentivador da intolerância, do egocentrismo e da agressividade entre pessoas. A pessoa acaba em si mesma e não vê os outros - como um amigo meu disse e concordo -.

Então o que espera nosso mundo nos anos vindouros?

Infelizmente já adianto que o meu prognóstico não é muito bom. Com individualismo exacerbado, falta de diálogo, sociedades desnorteadas, Estados inertes ou fracos, e a necessidade de uma nova reforma no regime que perdurou nos últimos 227 anos, o mundo está um barril de pólvora. As guerras atualmente não ocorrem mais de forma clássica entre nações, entre Estados. Mas ocorrem no dia-a-dia. Na porta de casa pode estourar uma guerra por gangues rivais, facções criminosas distintas, ataques terroristas, intolerância dos mais diversos tipos, abuso de força policial e por aí vai. A nova era pós-contemporânea inaugurou o que eu vejo como a banalização dos conflitos, e a indiferença com a vida humana, afinal mais de 6 bilhões de pessoas habitando o planeta é demais, não é?

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