Zika Vírus: Sim, um mosquito pode ser mais eficaz que um país inteiro!

Assistindo um programa do Globo News há uns dias, pude presenciar um dos mais épicos massacres que jornalistas adoram realizar a autoridades públicas em entrevistas. No caso, a repórter juntamente com uma representante de uma ONG que observa dados de saúde pública expuseram a total falta de coordenação federativa que nosso país vive. Isso porque simplesmente é difícil para governos federal e estaduais concordarem em dados simples. Essa é só a ponta do iceberg no caminho do Brasil (e do mundo), chamado Zika Virus. Irei focar a análise do problema no Brasil, mas darei umas pinceladas nos efeitos desse surto ao redor do mundo, para comprovar a imagem ao lado (de autoria própria do blog), como uma crítica severa não somente aos esforços de combate aos problemas gerados pelo vírus, mas à forma como as políticas públicas no Brasil são elaboradas e ainda mais implementadas.
A primeira vez que ouvi a respeito desse vírus foi quando minha mãe me mandou uma mensagem falando que eu deveria tomar cuidado caso quisesse ter filhos, pois um novo vírus estava gerando microcefalia em fetos, o que ocasiona problemas sérios para toda a vida da criança. Não acreditei de início, porque pensei que era algo vindo da internet (aquelas notícias falsas que correm mais do que água). Mas depois conferi a seriedade do assunto e percebi alguns fatos importantes e que me chocaram, pois percebia um governo que parecia ouvir falar pela primeira vez de um vírus que não é novo. Utilizei um artigo muito útil da AMB (Associação Médica Brasileira - clique aqui para ler o artigo original), veja:
- O Zika vírus não é nenhuma novidade, foi isolado em seres primatas na década de 1940 na África, e em 2014 especula-se ter chegado ao Brasil durante a Copa do Mundo por turistas;
- O Zika é silencioso na maioria das infectados, não causando sintomas em muitos casos, o que pode ter possibilitado a proliferação despercebida do vírus, aliado ao fato desses sinais serem bem semelhantes ao da dengue comum;
- O Brasil possui um sério problema em prevenção de doenças segundo especialistas na área, o que contribuiu para a disseminação do Zika.
Esses pontos são apenas alguns que expõem a realidade de um aparato governamental totalmente ineficiente no planejamento, execução e implementação de políticas públicas. Por isso, antes de falar mais sobre esses problemas, vamos entender um pouco sobre o que são políticas públicas.

Políticas Públicas - Algo que falta ao Brasil aprender.

Existem vários conceitos e teorias que envolem as políticas públicas. Mas acho que para a finalidade didática desse artigo o seguinte significado atende:
As políticas públicas (...), por sua vez, são outputs, resultantes da atividade política (...): Compreendem o conjunto das decisões e ações relativas à alocação imperativa de valores. Nesse sentido é necessário distinguir entre política pública e decisão política. Uma política pública geralmente envolve mais do que uma decisão e requer diversas ações estrategicamente selecionadas para implementar as decisões tomadas. (DAS GRAÇAS RUA, 1997, p. 1)*.
Mesmo não contemplado nessa conceituação, o processo de uma política pública também consiste no input para que seja gerada a demanda que dará gênese a essa ação. Exemplo: A despeito das críticas que existem sobre o Programa Mais Médicos, para que esse fosse implementado, em tese, a população através da pressão política, instrumentos de mídia e insatisfação externalizada levou ao poder público perceber a carência de médicos no país e a necessidade de importá-los de outros países.
Para os especialistas ou estudiosos do assunto, já deixo claro que só arranhei o estudo de políticas públicas, por não ser o propósito aqui aprofundar nos pensamentos de Easton e companhia.
Agora trazendo isso para a realidade do Brasil. Assim como no caso do programa Mais Médicos, e na reação do governo no combate ao Zika Vírus, nas palavras do médico Dr. Érico Arruda: "Vivemos como bombeiros". As entrelinhas dessa fala revelam a ineficácia das políticas públicas de um modo geral no país, e especificamente no caso do combate ao Zika Vírus: O governo trabalha, via de regra, de forma remediadora, ao invés de trabalhar preventivamente. E por que isso faz a diferença?
Primeiro, trabalhar preventivamente elimina boa parte do esforço imediato, desorganizado e custoso. Segundo, trabalhar em prevenção não elimina a preparação para uma reação ao um problema caso seja preciso, mas faz o governo ficar mais atento, pronto e também torna uma ação reativa menos custosa (seja do ponto de vista financeiro, administrativo, humano, etc.). Há que se salientar também as vidas que são salvas em políticas públicas como as que deveriam prevenir a proliferação do Aedes Aegypt. Isso torna o custo de programas preventivos insignificantes próximo ao benefício que gerará na sociedade.
Finalmente cabe levantar o que o Dr. Arruda afirma no artigo da ABM: " ... [existe a] pouca adesão que parte da população tem na prevenção de doenças, devida à falta de educação". Não há país no mundo que avance sem educação. Nessas horas aqueles reais que o governo economiza ou deixa escorrer pelos ralos da corrupção e da má gestão pública fazem falta. Pois a população desinformada, mal educada e alienada acaba por não entender a importância de receber um agente de saúde, ou fazer exames, ou ainda o simples ato de não deixar água empoçada.
Por essas e outras o mosquito é mais forte que um país desinformado, mal governado e com políticas públicas que não antecipam os problemas, mas corre atrás deles.


DAS GRAÇAS RUA, Maria. Análise de políticas públicas: conceitos básicos.Manuscrito, elaborado para el Programa de Apoyo a la Gerencia Social en Brasil. Banco Interamericano de Desarrollo: INDES, 1997.

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